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Querido, precisamos falar


As mulheres gostam de falar dos problemas. Dizem que é o segredo da intimidade. Para um homem só faz sentido falar de problemas se for para encontrar uma solução. Mas se há coisa que dá cabo de uma boa conversa sobre problemas é um parvalhão a tentar resolvê-los.

Homens e mulheres têm tanto de igual como de diferente. São diferentes na forma de pensar, de sentir, de agir. Mas talvez a diferença mais importante entre sexos seja a forma como homens e mulheres comunicam. Eles comunicam através de ações. Elas através do diálogo. E não há coisa mais palerma do que comunicar através do diálogo.

Um homem percebe uma mulher tanto quanto um índio peruano percebe um turista japonês. De igual modo, uma mulher entende um homem tanto quanto um iguana entende um turista japonês. A conclusão que se pode tirar daqui é que ninguém entende um turista japonês.

Uma constatação surpreendente, uma vez que na gênese da comunicação verbal estão as palavras. Só que até essas têm significados diferentes consoantes o gênero. No dicionário da mulher, o vocábulo “vulnerável”, por exemplo, significa expor-se emocionalmente perante outrem. No dicionário do homem, “vulnerável” é estar a jogar à bola sem caneleiras. A palavra “rabo”, que para elas identifica a parte do corpo que todas as peças de roupa fazem parecer maior, para os homens define a parte do corpo delas que nem sequer devia usar roupa. Ou a palavra “compromisso”, que para uma mulher representa o desejo de casar e criar uma família e nem sequer aparece no dicionário do homem.

As conversas entre homens e mulheres assemelham-se ao jogo do telefone avariado. Uma pessoa diz uma frase ao ouvido de outra sem mais ninguém ouvir. Essa pessoa sussurra a frase à pessoa seguinte e por aí em diante, sempre em segredo. Do que me lembro desses jogos, se a primeira pessoa dizia “a Rosa tem um lindo cesto de limões”, a frase que chegava ao fim era “a Rosa tem um lindo par de melões”. O que até nem era mentira.

Importante parece ser também a afinação da voz. As mulheres preferem discutir em Maior enquanto os homens optam pelo Menor. E elas, mais sensíveis a esta coisa das artes e da música, raramente estão satisfeitas com o tom em que o homem fala com elas. “Que tom de voz é esse? Estás a falar com esse tom de voz por quê? Não sei se estou a gostar do teu tom de voz... Tu não me levantes a voz”.

Quando um homem fala tem sempre um propósito. Para uma mulher, muitas vezes, o único propósito é falar. Querem alguém que as ouça e que compreenda os seus sentimentos. Ora, de ouvir um homem ainda é capaz. Agora se é para compreender sentimentos, falar com um homem ou com um bloco de cimento vai dar ao mesmo. A única diferença é que um bloco de cimento não interrompe a conversa tantas vezes.

Como é que um homem lida com sentimentos? Enterra-os. Um homem é uma espécie de coveiro sentimental. Já as mulheres são autênticas Doutoras Frankenstein, peritas em exumar sentimentos defuntos e trazê-los de volta à vida. É que para uma mulher não ter nenhum problema é um grande problema. Significa que não têm assunto para falar.

Para um homem chega uma altura em que já não há temas de conversa. Para uma mulher, os tópicos de conversa só acabam no dia em que falece. Acontecimento que por sua vez se transforma num novo tema de conversa para as suas amigas.

Mesmo as técnicas de conversação são diametralmente opostas. Os homens socializam com outros homens na base do insulto. As mulheres na base do elogio. E nenhum dos dois está a ser sincero. Os homens não gostam de usar duplos significados. Para uma mulher tudo tem um duplo significado. Quando um homem diz qualquer coisa não é preciso ficar a pensar no que ele realmente queria dizer. O que ele realmente queria dizer foi o que ele realmente disse. Já uma mulher raramente diz o que quer dizer.

É por isso que as mulheres só precisam perguntar uma vez se está tudo bem. Não precisam perguntar trinta. Já os homens precisam perguntar trinta vezes até uma mulher admitir que se passa alguma coisa. Das primeiras vinte e nove está tudo bem.

As mulheres têm que ter sempre a última palavra numa discussão. Qualquer coisa que um homem diga depois é já o princípio de uma nova discussão. São estes episódios místicos de intuição feminina que lhes conferem também a habilidade de saltitar entre assuntos a meio de uma conversa. Para um homem, conversar com uma mulher é como ler um livro saltando dez páginas de cada vez. “Tu és incapaz de fazer a cama de manhã”, vira a página, “é claro que não gostas da minha mãe”, vira a página.

Este exercício faz dos homens peritos em virar a página, desligar da conversa e esquecer-se de quase tudo. Infelizmente, elas lembram-se de tudo e mais alguma coisa. Os homens precisam falar quando as coisas acontecem. Elas dizem “falamos disso quando chegarmos a casa”. O problema é que quando chegam a casa o homem já se esqueceu do que aconteceu.

Uma espécie de memória seletiva que permite que o homem saiba perfeitamente quem marcou o terceiro gol da vitória do Benfica na final europeia de 1961 contra o Barcelona (Mário Coluna, como é evidente), mas não faça a mínima ideia do que a mulher lhe disse há cinco minutos atrás. A mesma memória que o faz perguntar à mulher se é preciso ajuda para fazer o jantar, quando já está tudo pronto.


Mas se homens e mulheres falam línguas tão diferentes, será possível que algum dia venham a se entender? Claro que sim. Desde que sempre que estiverem a ter uma conversa, um deles não abra a boca.

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