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Coisas de homem, parte 1

Homem que é homem faz coisas de homem. Frequenta estabelecimentos de homem. Vê filmes de homem. Bebe bebidas de homem. Come comida de homem. Cospe, arrota, flatula. E depois vai ao cabeleireiro.

Nem todas as coisas são coisas de homem. E, sobretudo, nem todas as coisas têm o direito de se chamar coisas de homem. É que uma coisa de homem não é uma coisa qualquer. Para ser de homem, todos os componentes individuais que em conjunto constituem essa coisa têm de ser de homem. E basta que um desses componentes não seja de homem para que essa coisa deixe de ser uma coisa de homem. Como uma feijoada de soja.

Quando um homem vai ao cinema, há regras para garantir que vai ver um filme de homem. Regras que variam consoante ele for ao cinema com os amigos ou com uma amiga. Se vai com uma amiga, todos os filmes são filmes de homem desde que sirvam para aumentar as chances de forrobodó no final. Incluindo quaisquer golpes baixos, como deitar umas gotas de soro fisiológico nos olhos no fim do filme para mostrar o seu lado sensível. Mesmo que tenham ido ver uma comédia.

Se vai ao cinema com os amigos, a história é outra. Para ser um filme de homem, o personagem principal deve estar a salvar aldeias de
pessoas simples que têm apenas enxadas e arados para se defender contra as metralhadoras dos vilões, ou a lutar contra o crime sem seguir as regras, ou ter superpoderes para combater o mal, ou estar a defender o seu país de uma invasão de alienígenas, ou estar a fazer justiça pelas próprias mãos, ou ter uma profissão que automaticamente lhe dá o direito de possuir todas as mulheres do filme. E é
expressamente proibido comprar pipocas. A não ser que seja para as atirar contra alguém.

Já um estabelecimento que exiba posters de miúdas giras, como as oficinas de automóveis, é de homem. Se o dito estabelecimento até tem mulheres de carne e osso que nos atendem e tratam de nós, também é de homem. Se o propósito desse estabelecimento é tornar um homem mais atraente para as mulheres, é evidente que é de homem. Mas chamar-lhe cabeleireiro é que não. Um Cabeleireiro de Homem não existe. Ou bem que é um cabeleireiro, ou bem que é de homem. Barbeiro é que é de homem. Barba e cabelo, se faz favor. Ou só barba, no meu caso.

E cuidado com os que se dizem cabeleireiros unissexo. Podem tentar convencê-lo do contrário mas, se é unissexo, é só para um sexo. Deixe as interpretações para as mulheres. E normalmente tende para ser do feminino. Por isso, se quando se senta para cortar o cabelo, mete a mão às revistas e lhe calha a Nova Gente ou a Caras, claramente entrou no estabelecimento errado. Resta-lhe sair a correr e procurar o bar mais próximo para recuperar um pouco da sua masculinidade de volta. Mas atenção, nem todas as bebidas são próprias para o consumo masculino.

Bebidas de homem não têm fruta. Não têm chapeuzinhos. Nem podem exibir uma palete de cores que inclua grená, violeta ou fúcsia. Um
cocktail, não sei o que é, mas não é de homem. Sex-on-the-beach é bom quando é realmente sexo na praia. Um Appletini é um Martini depois da operação de mudança de sexo. Lembre-se que a primeira pessoa que pede uma bebida estabelece o tom para o resto da rodada do grupo. Se o primeiro homem pedir uma água, o segundo pode pedir o que quiser que é de homem. Agora, se o primeiro pedido for uma cerveja, se o segundo não igualar ou subir a parada, é um grandessíssimo Appletini. A não ser que o primeiro tenha pedido uma cerveja sem álcool. E nesse caso, já toda a gente sabe quem é que é o Appletini do grupo.

Já a comida de homem tem de ocupar pelo menos noventa e cinco por cento do prato, ou da travessa, em que é servida. E o molho deve estar em cima da comida, não a decorar as bordas do prato. É igualmente importante saber distinguir entre o que é um prato principal e o que é um acompanhamento. Uma salada não é uma refeição. Uma sopa é o princípio da refeição. Ficam a faltar o meio e o fim. Uma refeição, para ser de homem, tem de ter entrada, prato principal, sobremesa e arrependimento. Cada refeição que não termine com uma jura solene de que nunca mais irá comer tanto na vida, não é de homem. Nos restaurantes gourmet a quantidade de 0comida que servem em cada prato é inversamente proporcional ao preço do prato. Quanto mais caro for, menos comida traz. É uma mania dos franceses que, como todos sabemos, é um povo cuja alimentação é feita à base de baguetes. Por causa disso, tenho a sincera impressão de que nos restaurantes finos só há meias doses. E são sempre mal servidas. 

É que quando um homem quer comida fina, manda cortar o presunto mais fininho...

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